SOBRE O SILÊNCIO

By Aline Silveira - Cupido Brega - 21:26:00

Já passam das 3 horas da manhã e os dois continuam ali sentados no sofá. Ele assistindo a uma série dessas investigativas e ela lendo um romance daqueles que são indicados a mulheres apenas, por serem açucarados demais para os paladares apreciadores de cerveja e de cheiro de óleo diesel (como se o mundo não estivesse cheio de mulheres que apreciam essas coisas).

Eles já não trocam uma palavra a mais de 2 horas, desde quando ele deu play no primeiro episódio. Além da TV só se ouve o barulho da chuva bem fraca. 

Ela teve certeza que deveria passar o resto da vida com esse cara (ou pelo menos uns bons anos, já que não tem certeza se casamentos podem durar a vida toda), depois de notar que não se incomodava em dividir o seu momento de leitura com ele. Normalmente ela precisava de silencio e de solidão para emergir no mundo dos personagens. Mas com ele, ela não se incomodava e até se sentia bem. 

Mesmo não levando a sério certas histórias perfeitas demais, gostava de acreditar que as lições dos livros na maioria das vezes eram meio ocultas, escondidas nas entrelinhas e nos sentidos figurados. Ela lia com bastante frequência. Gostava vez ou outra de enquanto lia sobre o herói ou mocinho ficar olhando para ele e ficar imaginando seu rosto no personagem. Ele nunca percebia esses olhares e ela não se incomodava por conta disso.

Ele também gostava da companhia dela enquanto assistia a suas séries, filmes e ao futebol. Normalmente se incomodava em assistir a esses programas com pessoas que não gostassem ou não os conhecessem bem. O deixava desconfortável o fato de a pessoa fazer perguntas pra se mostrar interessada, ele não queria um falso fã se metendo nos seus assuntos. Sentia até um certo ciúme. Com ela era diferente, ela só fazia companhia, não perguntas. 

Algumas pessoas os olhariam em silencio e veriam um casal em crise. Mas nem todos conseguem entender a satisfação de encontrar alguém que faz o silencio e a falta de assunto não ser de forma alguma algo constrangedor e que não seja preciso uma conversa para que sintam que estão ligados.

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